Sob o olhar de Madalena


 Conheci o mestre depois de seus discípulos. Eu ouvia muito falar de Jesus de Nazaré e sobre seus prodigiosos sinais em toda Israel... muitos o proclamavam Messias e Rei, outros diziam que era um grande profeta e outros mais tradicionais e apegados à Lei o chamavam de farsante, louco e muitas outras injúrias... Mas antes de falar de Jesus, preciso falar um pouco da minha história! As nossas historias se cruzaram. Posso dizer que se entrelaçaram em um caso de amor eterno. Não esse amor dos homens, não esse amor de pai para filha, de amigo para amigo, um amor que só fui ter ciência muito tempo depois.

Meu nome é Maria e venho de uma pequena vila que fica às margens do Mar da Galiléia, de nome Migdal (Magdala) e de povo muito simples e pobre.
Meu pai conheceu minha mãe quando os dois eram bem jovens; ele era de Jerusalém, possuía muitos bens e não gostava do grande movimento da cidade Santa. Por isso, ao se casar com minha mãe, se mudaram. Eles muito tempo ajudaram as pessoas do vilarejo e mesmo após meu nascimento isso continuou acontecendo.

Sempre fui uma jovem alegre e atenta às leis de Deus. Esperava com afinco o dia que encontraria meu grande amor e constituiria uma família. Ao contrário dos meus pais, queria ir para Jerusalém; e como toda judia esperava a vinda do Messias. 
As coisas mudaram um pouco quando uma doença grave veio sobre minha mãe e a levou. Isso começou a frustrar meus sonhos pois precisaria cuidar de meu pai, não podia deixar aquele que tanto amava e que tanto me amava sozinho.


Foram longos e longos anos assim, fui perdendo as esperanças na vida e em nosso Deus.
Meus olhos não brilhavam ao falar de sonhos e sinceramente a figura do Messias era algo esquecido pra mim. Sempre que andava por Migdal ouvia comentários que machucavam minha alma. 
Eu era a única mulher jovem que ainda não tinha marido. Tentava fingir que aquilo não me fazia mal, mas corroía minha alma; sentia como se ela fosse sendo arrancada pedaço por pedaço quando ouvia certo tipos de comentários... Os comentários de um jovem profeta a quem diziam ser o Messias já corriam por Migdal. Qualquer coisa que fosse de diferente era motivo para me atingir, logo comecei a ouvir coisas como "Maria, procure esse novo messias, quem sabe ele não lhe arrume um marido". 

Não demorou muito para meu pai vir a morrer e eu ficar sozinha de vez nesse mundo. Passei a não sair muito de casa. Minha vida ia sucumbindo dia após dia. 
Certa manhã precisei comprar algumas coisas para que pudesse me alimentar, quando ouvi boatos que Jesus estaria em Cafarnaum dentro de alguns dias. Em meu coração ardeu o desejo de encontrá-lo. 

O que aquele homem podia ter que ao ouvir que Ele estaria perto meu coração acelerava? (...) Sai no início da manhã seguinte e fui em direção à cidade de Cafarnaum. A cidade tinha mais gente que o normal e todos em direção à sinagoga. Ao chegar lá o encontrei... nossos olhares se cruzaram e formaram só um, sorria pra mim como se já me conhecesse. E de fato, conhecia.


Corri em sua direção e cai aos seus pés.. Chorava e chorava.. nunca alguém tinha me acolhido e me olhado daquela forma.  Supliquei: "Tira do meu coração essas dores, esses tormentos que rasgam meinha alma." Ele sorriu, o vento balançou seus belos cabelos castanhos, olhou em meus olhos e disse.: "mulher, não chores... Deus enviou seu filho ao mundo para que todo aquele que crê não pereça e tenha a vida eterna, creia nele!". Naquele momento percebi que Jesus falava de si, naquele momento percebi que Jesus não era só o que eu esperava, Jesus era o que o mundo esperava!

Então o segui, me juntei a um grupo de mulheres e com os seus 12 discípulos e foram 3 anos maravilhosos. Jesus era tão grande mas ao mesmo tempo tão igual a nós. Seu sorriso era a porta da felicidade; não era possível tristeza ou qualquer sentimento ruim. 
Foram três anos de plena alegria na presença física dele,

 Essa alegria se perpetua até os dias de hoje, se perpetua em meus sofrimentos e angústias. Jesus permanece mais do que nunca conosco...Quando chegou o momento de sua morte foi algo inicialmente trágico para mim. Amo Jesus profundamente e acompanhei todo seu sofrimento, vi seu corpo sendo dilacerado pelos ferozes algozes, vi suas Santas e delicadas mãos que tanto fizeram o bem e propagaram o amor serem perfuradas, o vi pendurado em uma cruz! 

Com a morte de Jesus naquela fatídica sexta-feira morreu parte de mim também, não morria apenas alguém que eu muito amava, não morria somente meu líder, eu morria também. 
Em Jesus eu havia encontrado a mim mesma, nEle encontrei minha identidade, ele me libertou do mal para o encontro da vida em Deus. Jesus foi mais íntimo de mim do que eu mesma e por isso sua morte significou a minha morte.  Ao chegarmos no sepulcro começamos a limpar suas ferida, hoje vejo e sinto o significado daquela morte: Ele ofereceu por nós! 



Beijei seus cravos, suas mãos que apagaram o castigo do mal em mim, beijei a ferida que curou a ferida em meu coração. Beijei o meu Senhor, naquela pedra fria estava o meu tudo, ali estava o amado de minha alma, beijei o seu lado aberto pela lança, dali jorrava amor.
Beijei as suas vestes sujas que esconderam todas as minhas misérias, Jesus sempre me cobriu de amor, como eu disse antes e agora sei... um amor divino, um amor transcendental, um amor vindo de Deus. Beijei os lençóis que envolveram o seu corpo ferido, aqueles lençóis cobriram meu coração e me devolveram a dignidade, ao sair daquele sepulcro e deixá-lo lá beijei a pedra, a pedra que seria testemunha de algo grandioso. 

O sábado passou e todos nós estávamos tão feridos e mortos, a nossa razão aparentemente tinha morrido, mas algo em mim me impulsionava, eu queria voltar ao sepulcro. 
Quando as primeiras horas do domingo surgiam fui correndo, ao chegar lá a pedra estava fora, o sepulcro vazio e eu incrédula chorei e ouvi uma voz.
- "Mulher, por que está chorando ?
Minha dor era tanta que não percebi sua voz e disse:
- "Se levou o meu Senhor para algum lugar, me diga por favor para que eu possa buscá-lo." 
Então, como naquele dia em que nos vimos pela primeira vez ele falou 
- "Maria..."
Ali me dei conta de quem era, era Ele. 


Era o mesmo mas emanava uma luz, recuperava toda realeza que havia se ocultado na sua morte, corri para perto e me joguei aos seus pés e Ele me disse: "Maria, deve me deixar ir agora... eu ainda não ascendi ao meu Pai, vá e conte a Pedro e aos outros que estou vivo, pode fazer isso por mim?!" E sumiu, sumiu da minha vista, pois está até hoje em meu coração.
 Jesus apareceu para nós outras vezes e comigo esta até hoje, gravado em meu coração, naquela manhã descobri quem era, era o meu Deus, era o amado de minha Alma, a quem tanto esperei...


Pôr.: Matheus Souza

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